O QUE É O CONGRESSO DO MEDO?
Desde 2018 o Congresso do Medo congrega e apoia pessoas singulares, entidades públicas e privadas que tenham por objectivo proporcionar um fórum de debate, criação de projetos nacionais e internacionais nas áreas correlatas e de intervenção ao tema, consolidando práticas de colaboração, divulgação e conhecimento multidisciplinar, promovendo a integração do assunto entre comunidades. Pretende, ainda, fundar redes de colaboração e divulgação de matérias associadas ao evento bianual. Presencial e online.
Mensagem do Diretor do Congresso
No dia em que nasci a minha mãe trouxe ao mundo dois seres. Eu e os meus medos. Sobre esse meu irmão gémeo Cervantes disse ter muitos olhos, vendo coisas no subterrâneo. Nos nossos dias o medo tornou-se um mal – eminentemente - psicológico, apresentando-se, agora, sem forma, sem limites,..., habitando, definitivamente, no subterrâneo das nossas mentes.
Anatomia do medo
À margem das reações instintivas, crenças limitantes, da própria cultura ou da mitologia,..., a origem do medo estará, ainda para muitos, radicada na organização biológica do ser humano, surgindo deste modo a anatomia do medo. Em vista disso, o medo aparece-nos radicado no arresto da amígdala humana. Aí, das “conversas” que acontecem na zona reptilária do cérebro, a nossa área mais recôndita da existência, surge o medo. A primeira e mais intensa das emoções, o medo, mostra-se, então, embasado na fisiologia humana, mais que na mente colectiva ou nos pavores individuais de cada um de nós. Surge, então, a ideia do medo como uma reação complexa do corpo físico a um estimulo do sistema limbico, também conhecido pelo cérebro emocional.
Autópsia do medo
Partamos da premissa que o medo não serve para evitar o perigo. Para isso apenas necessitamos de inteligência ou, até mesmo, nos baste ter bom-senso e uma razoável memória. Logo, o medo poderá ser compreendido do ponto de vista cultural. Isto a bem da evolução dos seres humanos e não humanos. Há demasiados autores a defender que o medo reside em todos os seres sencientes, pretendendo com isso justificar que o medo é, fundamentalmente, biológico. E, também será, acho. De facto tudo o que é relacional depende da comunicação entre hardware e software. E a cultura é, igualmente, isso. O que trazemos, o que experimentamos e o resultado disso mesmo. Acresce aqui a dúvida na tentativa de perceber qual entre os dois, se o hardware ou o software, está no comando quando pensamos no ciclo evolução e adaptação. A este propósito não poderei de deixar de lembrar uma frase de Schopenhauer que me tem acompanhado ao longo da vida. “O homem pode fazer o que quer, mas não pode querer o que quer”. É pois nesta possibilidade que residem todas as repostas no que ao comportamento do ser humano diz respeito. Por que ficaria o medo fora deste condicionalismo?
Medo e evolução humana
Acredito que o medo é mais cultural que biológico. Cheguei a tais conclusões observando o comportamento dos cães. Quando eu era miúdo os cães tinham por hábito reagir ao movimento e ao ruído de forma distinta da atual. Corriam atrás das motorizadas e das bicicletas. Reagiam ferozmente quando observavam um gato. O mesmo para as pessoas desconhecidas. Hoje isso, praticamente, já não acontece. Mas, o que mais me ajudou nesta observação foi um outro aspecto muito mais esclarecedor relativamente ao medo. Então. Quando eu era miúdo era frequente encontrar cães soltos pela rua, pelos campos,..., eles viviam em liberdade e muitos eram audazes na defesa dos seus interesses. Então, todos os miúdos sabiam que para afastar um cão bastava fazer de conta que estávamos a apanhar uma pedra, ainda que imaginária, desenhando seguidamente o movimento que a irÍamos atirar ao canídeo. Era infalível. O cão fugia a sete pés. Nos nossos dias sempre que tento repetir este exercício o resultado é bem diferente. Eles já não têm medo que eu lhes atire uma pedra, do ruído das motorizadas, do movimento misterioso dos ciclistas,..., convivendo , mesmo, pacificamente com os gatos. O cão tem, agora, diferente atitude perante a ameaça e o medo do desconhecido. Porquê? Porque culturalmente as condições se alteraram. O mesmo acontece com os seres humanos. Com as devidas diferenças culturais, geográficas e cronológicas, naturalmente.
A geografia do medo
Há anos que explico a relação entre a cultura e o medo a partir de uma ideia que facilmente se compreende nos nossos dias. Conforme eu viajo pelo planeta eu vou encontrar medos diferentes. Ou seja, o medo está eminentemente dependente da cultura local. Por exemplo, para os ocidentais existe muito medo da morte. Para as tribos animistas do centro de África a morte é um ritual de passagem celebrado alegremente. Igualmente, para os budistas, em qualquer parte do mundo, o medo não assiste à morte. E , deste modo, se justifica a importância do entorno cultural na construção do medo. O pensamento ocidental, muito por influência da cultura grega, deu-nos outras pistas, relacionando medo com um erro de perspectiva. Aquilo a que, simplificando, chamaríamos ausência de razão. Ou seja, chegamos ao medo por dificuldade de pensar de forma razoável. Naquela época, como não poderia deixar de ser, lá iam dizendo que haveria alguma influencia divina em tal desordem mental. Depois disso, por altura de meados de 1500, Montaigne afirmava ser o medo mais importuno e insuportável do que a própria morte. A prova disso é a quantidade de pessoas que, ainda hoje, se suicidam por medo. Uns enforcaram-se, outros atiraram-se de assustadores precipícios, outros apenas se afogaram por medo. Exércitos inteiros, grandes estadistas, ..., todos nós já sentimos medo. Apenas a forma como percebemos, ou não, esta emoção nos distingue. Novamente e sempre a questão cultural.
Que futuro?
Nos nossos dias muitos dos medos parecem não ter relação com algo real. Certo é que na sua maior parte estão ligados à possibilidade de algo que pode, ou não, acontecer. Isto mantém-nos prisioneiros de uma trágica ambivalência, entre o passado ou o futuro. E o facto de não sermos capazes de viver no presente abre um enorme espaço de angustia. Conclusão, no ocidente, o medo torna-se, na atualidade, grandemente uma projeção psicológica, resultado de uma mente indisciplinada. Com a assunção da ditadura da mente criamos um mundo, cada vez mais, ilusório. Com isto prevejo que no médio prazo o medo perca o seu lado eminente cultural e se passe a radicar na luta pelo controlo mental dos indivíduos. Esse será o espaço que sobra para o extermínio da espécie humana. E em que escola é que se ensina, presentemente, a resistir à colonização da mente humana?
Paulo Vieira de Castro
Publicado na revista ZenEnergy, Março,2020.
"A emoção mais antiga e intensa da humanidade é o medo, e o mais antigo intenso dos medos é o medo do desconhecido". Assim definiu o medo H. P. Lovecraft.
ORADORES PRESENTES NA EDIÇÃO 2018
Local: Universidade Fernando Pessoa (Porto-Portugal)
Nesta iniciativa o Congresso do Medo teve os seguintes eixos temáticos:
Relatos de experiência em contexto de resistência perante o medo e o sofrimento.
Aquisição, desenvolvimento e avaliação de novas linguagens e expressões no referido contexto.
Tecnologias e novas terapêuticas de intervenção associadas.
Keynote Speaker
ALFREDO SFEIR YOUNIS
MEDO E MUDANÇA COLETIVA
Chileno. Economista ligado aos recursos naturais, ao meio ambiente, às políticas sociais, à ética e aos direitos humanos. Candidato à presidência da República do Chile ( 2013 ). Foi representante especial do Banco Mundial nas Nações Unidas, New York (EUA) e Genebra (Suiça). Doutor em Economia e Recursos Naturais pela Universidade de Wisconsin (EUA). Professor universitário e conferencista. Autor de vários livros e artigos sobre Economia, Espiritualidade e Desenvolvimento Sustentável.
Foi galardoado com vários prémios internacionais: Embajador por vida de la paz. Peace, merci and tolerance award. Peace ambassador. Diamond peace award. Dzambling Cho Tab Khen (World Healer).
Presidente do Instituto Zambuling para la Transformacion Humana, Santiago de Chile.
Painel 1
O MEDO ANALISADO SOB O OLHAR DAS NEUROCIÊNCIAS. AINDA, O MEDO E A SUA TRANSCRIÇÃO COMPORTAMENTAL.
Painel da responsabilidade da Delegação Regional Norte da Ordem dos Psicólogos Portugueses.
Participantes:
Doutor Eduardo Carqueja, presidente da Delegação Regional do Norte da Ordem dos Psicólogos Portugueses. Responsável pela Consulta de Psicologia e de Cuidados Paliativos do Hospital de S. João e do Centro Universitário.
Gabriela Salazar, mestre em Psicologia Clínica e da Saúde. Interessa-se pelas áreas do Trauma, da Psicologia de Emergência, do Stress nos Profissionais e Intervenção Psicológica em Crise e Catástrofe, isto de entre outros temas.
Humberto Mendes Faria Rodrigues. mestre em Psicologia Clínica. Editor-in-Chiefe e Fundador do International Journal of Psychology and Neuroscience.
Painel 2
POR QUE SOFREMOS?
Painel da responsabilidade do Coletivo Multidisciplinar MEDO.
Participantes:
Frei Fernando Ventura Teólogo, biblista e co-autor de “Somos pobres mas somos muitos”. Intérprete na Comissão Teológica Internacional da Santa Sé.
Doutora Maria João Guerreiro, investigadora do Observatório Permanente Violência e Crime, investigadora e docente da Universidade Fernando Pessoa.
Marta Fonseca, técnica superior de Assessoria aos Tribunais , Instituto da Segurança Social, I.P.
Painel 3
O MEDO DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL E AS FANTASIAS DA FICÇÃO CIENTÍFICA
Painel da responsabilidade do CTEC - Centro Transdisciplinar de Estudos da Consciência, da Universidade Fernando Pessoa.
Participantes:
Doutor Álvaro Campelo antropólogo, investigador e professor associado na Universidade Fernando Pessoa. 6 livros publicados. Interesses em grupos étnicos, religião, género, herança cultural de entre outros.
Doutor Joaquim Fernandes interessa-se particularmente pela antropologia religiosa comparada, com destaque para os fenómenos da religiosidade popular e da espiritualidade, mitos e cosmologias, e o debate entre ciência e religião. Autor de mais de uma dezena de obras.
Doutor Pedro Barbosa foi professor e investigador em várias universidades em Portugal e no estrangeiro (França, Itália, Brasil).Publicou mais de 18 livros em áreas muito diversificadas: poesia electrónica, ciberliteratura, teatro, ficção e ensaio.
Painel 4
MEDO E EXPERIÊNCIAS EXTRAORDINÁRIAS. POR QUE AS TEMEMOS?
Painel da responsabilidade do I-ACT: Institute of Applied Consciousness Technologies . Los Angeles (EUA).
Participantes:
Resistência e activismo no feminino
Mar Velez
A guerra na primeira pessoa. Guiné 1972-1974.
José Polónia ex-combatente da guerra colonial, fundador da Mindcoach e empresário.
O medo na ocorrência de fenómenos paranormais ou parapsíquicos em crianças.
Nanci Trivellato mestre em metodologia de pesquisa em psicologia (MSc.) e membro fundador da Academia Internacional da Consciência (IAC).
Tecnologias no combate ao medo.
Wagner Alegretti, engenheiro elétrico, especializado nas áreas de geração de energia, equipamentos médicos e desenvolvimento de software. Pesquisador da consciência desde 1980, tendo-se especializando em bioenergia.
A todos os presentes os nossos melhores agradecimentos.
Nota: Um especial agradecimento ao sempre disponível Manuel Peixoto, em especial pelo olhar atento com que seguiu sempre estas nossas iniciativas, fotografando-as como tão bem faz. Obrigado.